sexta-feira, janeiro 06, 2006

Peça a peça



Estranhos momentos do último mês em que tive "déjà-vus" da infância. Estava eu cuidadosamente a remexer caixotes com peças pequeninas de formas e cores distintas. Procurava, de cada vez, a peça exacta que me fazia falta, que encaixava no sitio que eu precisava. Sim, estava a montar legos, tal como há uns anos atrás tanto fazia.
Mas aquele ritual pareceu-me tão familiar que comecei a duvidar se seria só das brincadeiras de criança. Parei um pouco e pensei "Não será mesmo isto toda a nossa vida, como quem monta um lego?".
Vejamos, tudo começa com um projecto. Temos uma variedade enorme de peças à nossa disposição e resolvemos construir alguma coisa com elas. Podemos limitar-nos a seguir as instruções ou inventar algo por nós próprios. Se seguirmos as instruções acabamos por não fazer nada que não tenha já sido feito, se inventarmos uma coisa nova vamos ter muito mais trabalho porque não temos por onde nos guiar e também não temos muito bem noção de qual vai ser o resultado final. Mas é o compromisso entre o risco da originalidade e a monotonia do comum. De qualquer modo é sempre bom treinar com o que vem nos manuais de instruções, para nos habituarmos à utilidade das peças e aos encaixes possiveis (depois até podemos descobrir novas utilidades para as peças ou novas possibilidades de encaixes).
Uma vez definido o projecto chega a fase da montagem. Põe peça, tira peça, procura peça, as peças não encaixam como esperado, não temos no kit a peça de que precisávamos e temos de remediar com outra... mil percalços, e certamente temos de reformular o projecto muitas vezes, porque afinal não dava para montar como tinhamos pensado.
No fim de acabada a montagem, olhamos para o lego e começamos a pensar no que é que pode levar mais, aquela peça aqui ou aquela ali, ou então resolvemos desmontar quase tudo e voltar a montar alterando um pequeno pormenor ou trocando um monte de peças porque pode ficar mais bonito ou mais estável. Quando já está mesmo perfeito, se for um carro pode levar um atrelado, se for uma casa ainda merece um anexo...

E assim começamos com os Duplos, depois os Legos normais, segue-se os Technics e a seguir os Mindstorms, porque como disse um grande sábio "Há um vácuo de competência no mundo e, assim que as pessoas se tornam mais competentes, Deus ou a vida dar-lhes-ão coisas maiores para fazer".

E assim é a vida, de peça em peça a montar o projecto, de projecto em projecto até chegar à obra nunca-final.
E às vezes passamos mil vezes com os olhos por cima da peça que procuramos e não a vemos no meio da confusão das outras peças.. e os projectos que nos propõem que parecem impossiveis de montar...